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Amanda Moura: “Vivemos uma infância negligenciada pela falta de tempo das famílias”

Em entrevista, profissional aborda os impactos do uso excessivo de telas, a importância da participação dos pais no desenvolvimento infantil e os comportamentos que podem indicar a necessidade de acompanhamento especializado

11/10/2026 às 17h48
Por: Redação Fonte: Jornal Opção / Júlia Carvalho
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O Dia das Crianças, celebrado nesta segunda-feira, 12, também abre espaço para uma reflexão sobre as condições em que meninos e meninas estão crescendo. Em uma realidade marcada pelo uso frequente de dispositivos eletrônicos e pela rotina cada vez mais corrida das famílias, questões como a qualidade do sono, a alimentação, as brincadeiras e o tempo de convivência com os responsáveis ganham importância no debate sobre o desenvolvimento infantil.

Em entrevista ao Jornal, a pedagoga e neuropsicopedagoga Amanda Moura, especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, chama atenção para o que considera uma negligência das necessidades da infância. Segundo ela, a falta de tempo dos responsáveis e a inserção precoce das crianças em rotinas adultizadas podem comprometer experiências importantes para o desenvolvimento, especialmente nos primeiros anos de vida.

Ao longo da conversa, Amanda aborda os efeitos do uso excessivo de telas, os sinais comportamentais que merecem atenção das famílias e a importância da participação dos pais na vida escolar e social dos filhos.

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Quais são as principais dificuldades e demandas relacionadas à infância atualmente?

As principais dificuldades ou demandas que vejo referentes à infância são que nós temos, de fato, uma infância que vem sendo negligenciada. A maior parte das famílias não respeita as demandas que a infância exige. Então, são crianças inseridas numa rotina adultizada.

É uma rotina que muitas vezes não tem horários, horário para dormir, horário para comer, não tem uma rotina que respeite o desenvolvimento infantil. E, quando falo do desenvolvimento infantil, me refiro à questão dos ciclos do sono, alimentação saudável para essa infância, alimentos que são adequados para cada momento da vida, o sono, principalmente, e o uso excessivo de telas. Então, hoje nós vivemos, de fato, uma infância negligenciada devido à falta de tempo dessas famílias para se dedicar a essas crianças.

Como os pais e responsáveis podem priorizar o desenvolvimento saudável das crianças em cada fase da vida?

Eu acho que a principal forma dos responsáveis priorizarem esse desenvolvimento saudável é entender cada faixa etária, cada momento e cada marco do desenvolvimento em que essa criança está. Porque um bebê até um ano tem uma demanda, uma criança de até dois anos tem outra demanda, uma criança na primeira infância, que é até os sete anos, tem outra demanda, um pré-adolescente tem outra demanda e assim sucessivamente.

Então, eu acho que a primeira coisa é entender qual é a faixa etária do meu filho e o que essa faixa etária demanda. E aí entram todos os demais aspectos, a questão da alimentação, da rotina, atividade física, exposição ao sol, a parques, a brincadeiras, a conversas mesmo. Hoje, as famílias vêm conversando cada vez menos com essas crianças. Então, para desenvolver uma linguagem, um vocabulário, essa criança precisa ser exposta a convivências saudáveis, a diálogos saudáveis.

Quais são os impactos do uso excessivo de telas e do acesso precoce à internet no desenvolvimento infantil?

Sim, o uso excessivo de telas causa diversos prejuízos para o desenvolvimento infantil, principalmente quando não tem uma supervisão de conteúdo e de tempo. Aí, sim, os prejuízos são ainda maiores, porque a liberação de dopamina no cérebro é muito grande. Então, a criança fica o tempo inteiro na busca daquela recompensa.

Ela não tem paciência de esperar, não tem paciência de viver a vida na velocidade que a vida é vivida. Então, quando você fala de um cérebro em formação, isso traz muitos prejuízos, porque é uma criança que não tem paciência de entender uma explicação em sala de aula, não tem paciência de esperar a vez dela na brincadeira. É uma criança que não tem paciência, de fato, de viver a vida real, porque a vida digital tem outra velocidade.

Ela tem outra realidade. Muitas vezes, eles fazem coisas que não têm consequências no mundo digital. Aí a gente vê os jogos e diversos acessos. E, quanto à internet, ela é ainda mais perigosa, porque é, de fato, uma terra sem lei, infelizmente, no momento. Então, nós vemos que nunca sabemos quem está do outro lado. As crianças acabam tendo acesso a conversas, a sites de bate-papo, sites que deixam essa infância ainda mais vulnerável. Então, o uso da internet de forma precoce é uma vulnerabilidade da infância.

Quais sinais podem indicar que uma criança precisa de atenção especializada?

Os sinais são diversos. Quando a gente fala da questão das dificuldades de aprendizagem, conta muito com esse olhar da escola. Só que, junto disso, a gente sempre orienta que os pais sejam pais presentes.

Então, o que é ser um pai presente? É, de fato, ter aquela correção da prova em casa, perguntar para a criança como foi o dia, mas de forma mais dinâmica, tentar entender como está acontecendo, como está a convivência dessa criança junto aos pares, que são os coleguinhas, como está mesmo o desempenho dessa criança de forma acadêmica e de forma comportamental também, que é muito importante.

A interação social é um fator de desenvolvimento. Então, quando essa criança deixa de ter essa interação ou reduz muito essa interação, são fatores de alerta, sem dúvida.

É uma criança que às vezes muda o comportamento em casa, uma criança que fica mais agressiva, ou uma criança que às vezes para de comer, ou tem uma baixa no rendimento escolar. Tem vários sinais que a gente pode levar em consideração: uma criança que rói unha, por exemplo, queda de cabelo, criança que começa a ter alergias na pele, alergias atópicas, de coceira, coisas que demonstram que a criança está passando por um processo de estresse ou de irritabilidade.

Tudo isso precisa ser levado em consideração e, sempre que possível, a família deve, sim, buscar ajuda profissional, seja pelo pediatra, seja até mesmo na escola. Tem algumas escolas que oferecem acompanhamento psicológico da criança. E sempre buscar estar em parceria com a escola. Isso é muito importante, porque é onde a criança passa mais tempo da vida dela. Então, é muito importante que a família seja presente e participativa na escola, porque a escola pode trazer todas essas informações para a família.

Qual é a importância da rotina familiar e do tempo de qualidade com os responsáveis para o desenvolvimento das crianças?

A rotina familiar é muito importante para a criança, porque é através da vivência que a criança se desenvolve. Então, a gente tem os primeiros sete anos de vida, que é onde, de fato, se forma esse perfil. A personalidade da criança é formada nesses primeiros sete anos de convivência. E a presença desses responsáveis é muito importante, porque é nesse momento que a criança vai se sentir amada, vai se sentir pertencente, vai formar as vivências dela mesmo.

O que é significativo, o que não é, como eu posso ser amada, como eu devo ser respeitada, como eu devo ser tratada, como a minha vida vai ser no futuro, olhando para os meus pais, olhando para quem cuida de mim. O que eu quero replicar, o que eu não quero? Então, a vivência é muito importante. O tempo de qualidade com a criança influencia muito, porque é nesse momento que a criança se desenvolve. E aí entra novamente a questão das telas. Uma criança que fica imersa nas telas acaba não tendo tempo de qualidade com as pessoas ao seu redor. Então, ela não tem referência de vivências, de brincadeiras, de afeto. Tudo isso influencia nesse desenvolvimento.

Quais são os erros mais comuns que as famílias cometem na educação dos filhos e como podem lidar melhor com essas situações?

O erro mais comum que eu vejo é das famílias negligenciarem a primeira infância, porque são crianças que são fáceis de conduzir, de terceirizar. Você dá uma tela e a criança fica quietinha, você dá para alguém cuidar e dá tudo certo, você deixa na creche o dia todo.

E aí as famílias negligenciam essa primeira infância e depois colhem essa negligência na adolescência. São adolescentes que muitas vezes não participam da rotina da casa, não sabem lidar com frustração, são bagunceiros, não só com as próprias coisas, mas com a própria vida, não conseguem ter uma rotina escolar porque não lhes foi ensinado, entende?

E tudo isso deve ser ensinado na primeira infância. Então, a maior negligência que vejo hoje são as famílias deixarem de lado essa primeira infância, essa primeira educação. O que eu vejo hoje, como acho que as famílias deveriam lidar melhor com isso, é investir na primeiríssima e na primeira infância para que colham os frutos desse indivíduo que está se desenvolvendo. E tudo isso é ensinado de forma muito precoce.

Então, é dar responsabilidade para a criança, fazer com que ela se sinta pertencente ao núcleo familiar, se sinta pertencente também à questão das responsabilidades. Responsabilidades simples, como, por exemplo, não deixar a toalha molhada em cima da cama, colocar roupa suja no cesto, colocar o prato de comida na pia, exemplos do cotidiano, entende? Organizar o próprio material escolar. Isso tudo faz com que a criança se sinta responsável, se sinta pertencente àquele núcleo familiar, ela se sente capaz de se desenvolver, entende?

Você vai mostrando para a criança que ela tem capacidade de ser melhor a cada dia. Então, é muito importante que as famílias não coloquem a criança dentro de uma bolha e permitam que ela viva, entende?

Que ela participe do mundo real, da vida real, da rotina de uma casa, da rotina de uma família. Isso é muito importante.

Quais orientações práticas você daria aos pais e responsáveis para melhorar o desenvolvimento e o bem-estar das crianças?

Eu acho que seria mais voltado para olhar para essa criança. Qual é a necessidade dessa criança? Brincar com a criança, largar um pouco o telefone, tirar cinco, dez minutinhos do dia para dedicar atenção total a essa criança, escutar essa criança, fazer coisas que sejam do interesse dessa criança e do desenvolvimento dessa criança.

O tempo hoje é o bem mais valioso que nós temos e a maioria das famílias não consegue dedicar esse tempo a essas crianças. Então, isso é muito complexo, entende? É muito complexo. Então, como esses pais podem cuidar mais dessas crianças?

Dedicando tempo a elas, dando tempo de qualidade para essas crianças, levando para passear, tendo contato com a natureza, conversando com essas crianças, ensinando uma linguagem legal, sabe? Um vocabulário, um português correto, para que essas crianças possam se desenvolver na fase da alfabetização, possam se desenvolver na escola, nas convivências com outras crianças, permitindo que elas se frustrem. Isso é muito importante, reduzindo o tempo de tela.

Menos tela e mais brincadeira ao ar livre. Eu acho que seria um dos conselhos.

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